Ômega 3 e a síndrome da caquexia do câncer

A caquexia do câncer é uma síndrome multifatorial que se desenvolve durante o crescimento maligno do tumor. É caracterizada por inflamação sistêmica, intenso estado catabólico com perda progressiva de peso não intencional, perda de massa muscular e tecido adiposo e diminuição da atividade de vias anabólicas. Frequentemente está associada à anorexia e ao aumento do gasto energético, podendo levar ao comprometimento funcional progressivo, ao aumento da toxicidade das terapias antineoplásicas e à redução da qualidade de vida e da taxa de sobrevivência dos pacientes (GIACOSA & RONDANELLI, 2008; FEARON et al., 2011; GORJAO et al., 2018).

Considerados imunonutrientes, os ácidos graxos poliinsaturados ômega-3, têm sido utilizados na terapia nutricional de pacientes com câncer para prevenir e tratar a síndrome de anorexia-caquexia. Tais ácidos compreendem três moléculas ativas diferentes: ácido α-linolênico (ALA), ácido eicosapentaenoico (EPA) e ácido docosahexaenoico (DHA). O ALA é sintetizado nas plantas e pode ser encontrado em sementes, nozes e óleos vegetais. O EPA e o DHA, por sua vez, não são sintetizados pelo organismo e só podem ser encontrados nos peixes de água fria. O ALA pode ser convertido em EPA e DHA, por reações enzimáticas, mas essas conversões produzem pequenas quantidades de EPA e DHA no organismo (FREITAS & CAMPOS, 2019).

Um artigo de revisão recente demonstrou que, durante os últimos 23 anos, em 31 ensaios clínicos, os pacientes com câncer tiveram algum benefício com a suplementação de ômega-3, principalmente o EPA. Tais benefícios podem estar relacionados à capacidade do EPA de modular citocinas pró-inflamatórias, inibindo a transcrição do fator nuclear kappa B (NF-κB) e diminuindo principalmente a produção de interleucina-1 (IL-1), fator de necrose tumoral alfa (TNF-α) e interleucina-6 (IL-6). Uma vez que a inflamação orquestra a resposta integrada na caquexia do câncer, através do aumento da atividade das citocinas pró-inflamatórias durante a progressão do tumor, o EPA, por possuir potentes efeitos anti-inflamatórios, é importante para o efeito anti-caquético (GORJAO et al., 2018).

Em uma revisão sistemática abordando a suplementação de EPA como agente anti-inflamatório, os autores observaram que houve redução dos níveis de Proteína C-reativa (PCR), IL-6 e TNF, com efeito positivo na estabilização no peso, reduzindo a taxa de perda de peso e de massa corporal magra. Além disso, após a suplementação com EPA, houve também estabilização do gasto energético em repouso, a ingestão diária de energia foi significativamente aumentada e o apetite melhorado (PAPPALARDO; ALMEIDA; RAVASCO, 2015).

Assim como a caquexia do câncer não é causada apenas pela redução na ingestão de alimentos, a inflamação, apesar de sua relevância, não é o único mecanismo envolvido no seu desenvolvimento. Outra causa importante para a atrofia do músculo esquelético na síndrome é o fator indutor de proteólise produzido pelo tumor, o qual acelera a taxa catabólica, levando a um aumento da atividade proteolítica. Nessa linha, o EPA atenua a atividade das vias catabólicas, como a degradação proteica, a mobilização lipídica e a redução do consumo de glicose no músculo esquelético, todas induzidas pelo fator indutor de proteólise (GORJAO et al., 2018).

A dose envolvendo os efeitos da suplementação de ômega 3 na caquexia do câncer diverge entre os estudos. Enquanto algumas pesquisas relatam doses acima de 6g por dia, outras mostram que o fornecimento de ao menos 1,5g por dia, por um período prolongado, a pacientes com câncer avançado e perda de peso, já está associado à possível melhoria dos parâmetros clínicos, biológicos e funcionais, bem como da qualidade de vida (COLOMER et al., 2007; GIACOSA & RONDANELLI, 2008).

A dose média utilizada pelos estudos analisados variou de 2 a 3g de ácidos graxos poli-insaturados ômega-3, por dia, sendo que o mais utilizado foi o EPA. Em um ensaio clínico recente com pacientes com câncer de cabeça e pescoço durante o tratamento antineoplásico, os autores concluíram que a suplementação com 2g por dia de EPA, é capaz de regular citocinas pró-inflamatórias séricas, peso corporal, massa corporal magra e melhorar a qualidade de vida (SOLÍS-MARTÍNEZ et al., 2018).

Por fim, vale ressaltar que uma abordagem terapêutica que combine suplementos nutricionais, farmacologia e o exercício físico, ao invés de cada intervenção separadamente, demonstra promover melhores efeitos para prevenir e tratar a síndrome da caquexia do câncer.

Referências bibliográficas:

COLOMER, Ramón et al. N-3 fatty acids, cancer and cachexia: a systematic review of the literature. British Journal of Nutrition, v. 97, n. 5, p. 823-831, 2007.

FEARON, Kenneth et al. Definition and classification of cancer cachexia: an international consensus. The lancet oncology, v. 12, n. 5, p. 489-495, 2011.

FREITAS, Raquel DS; CAMPOS, Maria M. Protective Effects of Omega-3 Fatty Acids in Cancer-Related Complications. Nutrients, v. 11, n. 5, p. 945, 2019.

GIACOSA, Attilio; RONDANELLI, Mariangela. Fish oil and treatment of cancer cachexia. Genes & nutrition, v. 3, n. 1, p. 25, 2008.

GORJAO, Renata et al. New insights on the regulation of cancer cachexia by N-3 polyunsaturated fatty acids. Pharmacology & therapeutics, 2018.

PAPPALARDO, Giulia; ALMEIDA, Ana; RAVASCO, Paula. Eicosapentaenoic acid in cancer improves body composition and modulates metabolism. Nutrition, v. 31, n. 4, p. 549-555, 2015.

SOLÍS-MARTÍNEZ, Obed et al. Effect of eicosapentaenoic acid on body composition and inflammation markers in patients with head and neck squamous cell cancer from a public hospital in Mexico. Nutrition and cancer, v. 70, n. 4, p. 663-670, 2018